Noemille Mota

Mulheres não engravidam sozinhas

Não bastassem os encargos biológicos que naturalmente nos atingem, nos impuseram as mais diversas obrigações sociais, dentre as quais estão a pureza, a castidade, a meiguice, a amabilidade, a beleza, a sensualidade, a produtividade, a reprodutividade, a serenidade, a educação e proteção domiciliar da prole… Etc, etc.

Insatisfeitos em gerenciar nossas condutas, querem ainda gerir nossos corpos. Somos cíclicas. Biologicamente suscetíveis a violência obstétrica. Além disso, sofremos os mais diversos efeitos colaterais provocados por medicamentos que nos prometem uma vida sexual mais “livre” de preocupações e julgamentos (contraceptivos). 

Engravida quem quer?! Mentira! Sofremos injustiças por todos os lados.
Nenhum método contraceptivo feminino é 100% eficaz (falo dos métodos reversíveis e temporários). Em contrapartida, a grande maioria dos homens não se preocupa com o planejamento familiar.

Muitas vezes, frente às gestações inesperadas, os homens abandonam suas parceiras e se recusam a assumir a paternidade. O Estado criminaliza nossas escolhas, porém, nada faz com aquele que negligencia sua companheira e “foge” da obrigação que decorre do poder familiar com a paternidade.

VOCÊ NÃO É OBRIGADA A CUIDAR DE TUDO SOZINHA.

Apesar de gestar sozinha, você não precisa custear este período sozinha! Para isso existem os alimentos gravídicos, pensões alimentícias, guarda compartilhada, dever de cuidado e proteção. Tudo isso previsto no Código Civil Brasileiro e que cabe tanto ao homem (pai) quanto à mulher(mãe) .

Se houver recusa ao reconhecimento de paternidade, ainda durante a gestação você pode requerer os alimentos gravídicos (desde que haja indícios da paternidade), busque a justiça para exigir o direito do seu filho(a) de ter um pai e com isso poderá garantir a continuidade da pensão após o nascimento.

Para o Direito de Família e a Constituição Federal é dever do pai e da mãe o cuidado com os filhos. O Estatuto da Criança e do Adolescente evidencia o dever não só da família, mas de toda a sociedade de exercer os cuidados com os menores.

Mas, na maioria das vezes, nós, mulheres, ficamos com toda a responsabilidade sozinhas. Desde os cuidados com a contracepção até o pós-parto, educação, formação, etc…

Quando que um homem se perguntaria se seu “sêmen tem maior propensão a gerar um embrião” antes do coito? Mas querem nos dizer o que fazer quando a “sementinha” deles nos proporciona a “dádiva da vida”.

 

Mulheres não engravidam sozinhas.

Criminalizam nossas escolhas. Contudo, nada fazem com aqueles que negligenciam suas companheiras e seus filhos após descobrirem gestações inesperadas. Então, somos mais uma vez subjugadas. Duplamente condenadas: pelos nossos e pelo Estado.

Aqueles que não sangram mensalmente não saberiam explicar o infortúnio que é não ter 100% de liberdade sexual nessa sociedade em que nascemos fêmea.

“Não quer engravidar? Não transe. Está transando? Tome a pílula. A camisinha falhou? Tome a pílula de emergência. Engravidou? Aaah… Ninguém mandou ser descuidada, agora, vai ter que parir.” 

É uma árdua tarefa analisar cada alteração corporal, saber quando se está no período fértil, saber quando os sintomas da TPM não são uma gravidez, mesmo tendo se prevenido o suficiente.

 

“Segundo a ginecologista e especialista em reprodução humana Renata de Camargo, o único método 100% seguro para não engravidar é não transar.”

Em agosto de 2018 o site de notícias da UOL divulgou uma reportagem com a frase mencionada acima. Nenhum método contraceptivo é 100% eficaz. Inicialmente, é preciso se ter em mente quem realmente se submete a métodos contraceptivos na nossa sociedade. Obviamente, estamos falando de métodos aplicados majoritariamente à mulheres, exceto pelas camisinhas masculinas. 

Dentre esses métodos, os mais comuns são: anel vaginal, adesivos com hormônios, implantes com hormônios, anticoncepcionais injetáveis, pílulas anticoncepcionais, pílula de emergência, diafragma, DIU de cobre e camisinhas. O índice de falha da camisinha, por exemplo varia de 1% a 21%, as pílulas possuem um índice de falha que pode chegar a 8%, já o DIU tem índice de falha de 0,2%. Mas todos são falhos ainda que minimamente. Ambos prometem nos dar uma maior liberdade sexual, mas para isso devemos enfrentar efeitos colaterais muito desagradáveis.

O método mais eficiente é não ter relação sexual?

A maioria dos métodos hormonais de contracepção, ocasionalmente, causam náuseas, aumento do apetite, dores de cabeça e sangramento irregular nos primeiros ciclos menstruais. Alguns causam alteração no apetite sexual, alteração de peso e de humor, ou ainda alteram a lubrificação vaginal. Outros são tão invasivos, como é o caso do DIU, que podem causar perfurações no útero. Aaah, e não esqueçamos o risco de tromboembolismo provocado pelos métodos hormonais, sim, ELE EXISTE.

Nem vamos mencionar aqui os custos para utilizar quaisquer desses métodos. Quem optar por não usar quaisquer dos métodos anteriormente expostos, pode ainda tentar a “tabelinha” ou “coito interrompido”. Estes são métodos naturais popularmente conhecidos e que possuem as maiores taxas de falha, podendo chegar a 25% de chances de falhar.

No entanto, é uma árdua tarefa controlar totalmente o nosso ciclo menstrual, saber quando é exatamente o período fértil, quando há ovulação. Isso porque, a maioria de nós não possui ciclos regulares. Então, realmente, o método mais eficiente é não ter nenhuma relação sexual. Partindo dessa constatação, me pergunto: quem não deve transar? Diga a um homem que se ele não quiser ter filhos… não deve transar.

Ressalto que para eles os métodos contraceptivos são bem menos agressivos e mesmo assim é uma luta fazer com que nossos parceiros sexuais usem uma simples camisinha. Quantas de vocês já discutiu com o parceiro porque ele não queria usar o preservativo masculino? É algo muito simples, indolor, só colocar e tirar. E ainda assim eles criam dificuldades.

Concluindo, ESTAMOS SOBRECARREGADAS. E sequer temos o direito de decidir não continuar a gestar, diante da ausência de condições para pôr um filho no mundo. Seguem criminalizando nossas escolhas, sem nos dar suporte mínimo ao exercício dos nossos direitos sexuais e reprodutivos.

Referências